João Luiz Vieira

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"Me Chame Pelo Seu Nome": muito além de um filme gay

João Luiz Vieira

22/01/2018 04h00

Divulgação

Ao contrário do que se pode pensar, “Me Chame Pelo Seu Nome”, filme do diretor Luca Guadagnino (“100 Escovadas Antes de Dormir”), adaptado do livro homônimo escrito pelo egípcio André Aciman, de 67 anos, não é uma história de amor. É uma tocante narrativa que discorre sobre a transição da adolescência para a fase adulta centrada nas férias de verão de Elio, vivido com destreza por Timothée Chalamet, 22, indicado ao Globo de Ouro, e que deve repetir a façanha no Oscar.

Elio está na companhia dos pais em um casarão bucólico, numa região indefinida da Itália, quando recebe a visita de um norte-americano, que lá chega para auxiliar o pai do garoto em uma pesquisa para tese acadêmica sobre a estética e a cultura greco-romana. O hedonismo, sempre ele, contamina, assim, o ambiente. Elio e o forasteiro apaixonam-se e vivem um romance de verão que propõe fazer de Elio um homem maior e melhor.

Essa poderia ser uma “longa” logline, jargão que se usa no mundo do audiovisual, para vender uma história. O filme, porém, atravessa outras camadas. Além da interpretação elogiada dos protagonistas, incluindo o até então insosso Armie Hammer (31 anos), o mais interessante da proposta, em ambas as obras, é a suavidade como esse rito de passagem é tratado.

Nada de se levantar questões como assédio moral ou sexual, muito menos de pedofilia, mas, sim, de como esse encontro foi imprescindível na vida de Elio. É verdade que o enredo se passa no já longínquo 1983, ano em que o mundo começava a ficar perplexo com a questão do vírus HIV, e não se questionava as diferentes nuances de uma cantada, não existia a expressão “lugar de fala”, não se discutia (tanto) se um adulto poderia se envolver com um menor. O perigo maior àquela época era se apaixonar e não ser correspondido.

Para o rito, Elio tem alguns facilitadores. Seus pais são cultos, poliglotas como ele, acolhedores, discretos e não pensam em interditar as vivências do filho único, o que é, em si, uma raridade na contemporaneidade: nos anos 1980 e, desconfio, ainda hoje. Isso faz lembrar uma coluna aqui escrita sobre os limites dos pais nos questionamentos em relação às práticas sexuais do filho. Incrível como isso ainda é uma questão, muito bem retratada, aliás, no episódio “Arkangel”, dirigido por Jodie Foster, atriz e diretora norte-americana, na série “Black Mirror”).

Mesmo preocupado com o levante que poderia ocorrer, Oliver, personagem de Hammer, que tem 24 anos, sabe que, mais importante, é servir-se a essa transição. Não é um “drama gay”, muito menos um novo “O Segredo de Brokeback Mountain”, dirigido por Ang Lee há 12 anos. É  uma elegia à paixão, ao calor da juventude e de como somos mais lindos quando estamos apaixonados. É dessa obra um monólogo que fiz questão de escrever quando diante do filme e, sem spoiler, não vou dizer quem o profere:

“Como você vive sua vida é da sua conta, mas se lembre: nossos corações e nossos corpos nos são dados uma única vez e, quando você menos esperar, seu coração estará desgastado, e seu corpo poucos ainda o desejarão, e muitos menos irão querer chegar perto dele”. Simples assim. Responsabilidade e livre arbítrio, sem pudor ou avareza, porque esse tipo de beleza também passa, como todos nós.

 

Sobre o autor

João Luiz Vieira, 47, é jornalista, roteirista, letrista e educador sexual, ou sexólogo, como preferir. Ele tem dois livros lançados como coordenador de texto: “Sexo com Todas as Letras” (e-galáxia, fora de catálogo) e “Kama Sutra Brasileiro” (Editora Planeta, 176 páginas). É sócio proprietário do site paupraqualquerobra.com.br e tem um canal no YouTube: sexo_sem_medo.

Sobre o blog

No blog dialogo sobre tudo o que nos interessa para sermos melhores humanos: amor e sexo. Vamos encurtar o caminho entre a dúvida e a certeza, e quanto mais sabermos sobre nós, teremos, evidentemente, mais recursos e controle a respeito do que fazer em situações inéditas ou arriscadas de nossa intimidade. Trocaremos todas as interrogações por travessões. Abra seu cabeça, seu coração e... deixa pra lá.

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