João Luiz Vieira

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Você só pode falar sobre aquilo que vivenciou ou sofreu na pele?

João Luiz Vieira

20/11/2017 04h00

Joao Xavi/Visualhunt

Experiência e compreensão são uma coisa só? Melhor dizendo, não é porque você é heterossexual que, necessariamente, compreende a heterossexualidade. Ou se homossexual, a homossexualidade. Ou transexual, a transexualidade, e assim por diante. Pode-se também entender a fundo a própria identidade, o gênero ou a orientação, mas, a princípio, é uma vivência, legítima, mas muito mais um sentir que um saber.

Feridas, entretanto, podem tanto nos levar ao conhecimento quanto ao equívoco sobre a dor, já que há uma intimidade com aquela problemática, ou seja, pode-se sentir e saber como consequência de um sangramento emocional e/ou físico. Antes mesmo de identificar quem é aliado ou adversário numa conversa, porém, parte considerável da juventude militante desta contemporaneidade vem expelindo discursos inflamados se não identifica, à primeira impressão, cortes iguais.

O raciocínio veio depois de uma palestra da qual participei na semana passada, e sei que o caso não é isolado, por isso usarei como ilustração. A pauta do evento, para artistas, era gênero, e eu apresentaria apenas um panorama sobre o tema. Nada muito formal, sem recursos imagéticos. Um microfone e uma proposta de diálogo. Ao meu lado, uma atriz que se assumiu travesti e falaria sobre os percalços que a forjaram até ali, tendo como epílogo seu acolhimento como profissional das artes cênicas por uma companhia de teatro. Ela abriu a conversa, emocionou-se foi, justamente, aplaudida, e desviamos a conversa para a transexualidade.

Durante minha improvisada explanação, em que deixei claro não ter como falar sobre vivência transexual já que era cis, ouvi uma voz de mulher que vinha do escuro da plateia. Ela se disse travesti, profissional do sexo, e pediu lugar no palco. Automaticamente, a organização entregou-lhe um microfone, um espaço e um foco de luz. Eu havia iniciado o bate-papo questionando o ódio como forma de relevância em grupos sociais numa afoita temporada de desamor, além do enfrentamento sobrepondo-se ao armistício. Tudo o que eu havia proposto até ali, diálogo, porém, virou monólogo autodefensivo, por vezes agressivo, diante, veja você, de um grupo acolhedor.

Sentado ao lado de uma mulher vivenciada, preferi desligar meu microfone e hierarquizei as vozes. Ela em primeiro lugar. A palestra, portanto, ganhou em ciência e vivência. Ou assim pensei. Estava indo tudo bem, até que ela cindiu o chão com mais certezas que dúvidas a meu respeito (que ela acabara de conhecer) e, com o som do microfone em perfeito estado, explodiu em convicção: “Você não tem lugar de fala aqui por ser branco, cisgênero, heteronormativo, e de meia-idade. Sou nordestina (cearense), e na minha chave trago um canivete”.

Apesar de estar ali como um aliado nas questões referidas, que poderia e posso levar a ambientes onde aquelas personalidades não teriam acesso por eu ter, evidentemente, privilégios, fui sendo empurrado para o silêncio. Saí do Teatro da Rotina, em São Paulo, concluindo que, ao que parece, estamos perdendo, dia a dia, a capacidade de criar empatia com quem emite uma opinião (ou tem vivência) diferente da nossa, implodindo o que mais gostava na comunicação: ouvir o outro.

Os representantes dos lugares de fala, consciente ou inconscientemente, estão criando um vácuo na linguagem, o lugar do não ouvir. Em vez de educar e nos educarmos, estamos partindo para o confronto antes mesmo de garantir o direito da dúvida, e nem vou falar de entender o outro. Quem diria que em 2017 pensar diferente, e expor um ponto de vista, fosse um ato de coragem? Antes que me esqueça, não estou “lacrando” nada. Menos combate, mais debate. Proponho um novo diálogo para quem, sabe, juntos, voltemos a nos entender porque o fim da estrada é só parte do caminho. Ou não?

Sobre o autor

João Luiz Vieira, 47, é jornalista, roteirista, letrista e educador sexual, ou sexólogo, como preferir. Ele tem dois livros lançados como coordenador de texto: “Sexo com Todas as Letras” (e-galáxia, fora de catálogo) e “Kama Sutra Brasileiro” (Editora Planeta, 176 páginas). É sócio proprietário do site paupraqualquerobra.com.br e tem um canal no YouTube: sexo_sem_medo.

Sobre o blog

No blog dialogo sobre tudo o que nos interessa para sermos melhores humanos: amor e sexo. Vamos encurtar o caminho entre a dúvida e a certeza, e quanto mais sabermos sobre nós, teremos, evidentemente, mais recursos e controle a respeito do que fazer em situações inéditas ou arriscadas de nossa intimidade. Trocaremos todas as interrogações por travessões. Abra seu cabeça, seu coração e... deixa pra lá.

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